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terça-feira, janeiro 25

De nada adiantou ter lugar na segunda fileira do ônibus. A Lei de Murphy entrou em ação e, contra todas as probabilidades, acomodou as duas únicas crianças do ônibus bem na minha frente. E o pior, pertenciam à espécie mais comum de criança: a que tem bicho-carpinteiro no corpo. Podem me acusar de radicalismo, mas sou da opinião de que criança chata (o que é quase um pleonasmo) devia seguir viagem no bagageiro. Para escapar da cacofonia produzida pelas insuportáveis criaturas, fiz o que qualquer um faria: botei o fone no ouvido e só o tirei no término da viagem. Bem mais difícil foi ignorar o rosto de nariz ranhento que teimava em surgir sobre o encosto da poltrona. O jeito era fechar os olhos ou observar, com falso interesse, os detalhes do teto do ônibus.
Logo no início do trajeto o motorista chegou a ameaçar uma ultrapassagem ousada, mas desistiu em seguida. Neste exato instante, a Isobel cantava no fone: But still I hesitate because of fear. Achei uma coincidência engraçada. Se fosse ensaiado não teria a mesma sincronia. Já na serra de Petrópolis, ao encarar uma curva perigosa, o motorista tentou ultrapassar um caminhão gigantesco e quase meteu o ônibus no meio do monstrengo. Não satisfeito, incorporou o Satoru Nakajima e tentou dar um X num caminhãozinho invocado que o deixara para trás. Tomou uma fechada desmoralizante e, finalmente, sossegou o facho. Como o fone estava ocupado por Ride, Placebo, HOL e outros suspeitos usuais, o Morrissey foi impedido de fazer o comentário óbvio: And if a ten ton truck kills the both of us. Acho que me faltou presença de espírito.

sábado, novembro 15

Fiz o sinal pro ônibus e ele, como não podia deixar de ser, parou. Antes que o motorista arrancasse, subi os dois degraus rapidamente e livrei-me de um provável traumatismo craniano. Paguei a passagem, recebi o troco e sentei-me, como de hábito, perto do corredor na fileira da direita. Felizmente esses lugares específicos estavam vagos, porque uma coisa que eu detesto é entrar no ônibus e encontrá-los ocupados. Sinto-me completamente deslocado do lado esquerdo. Que foi? Qual é o problema em ser metódico? Que eu saiba não é crime... ainda. Aviso importante: se você, abnegado visitante, leu este texto até aqui por acreditar que ele tem algum propósito, vá tirando o cavalinho da chuva. Naquela ensolarada tarde de sexta, fiz um trajeto relativamente curto. Mesmo assim, a tranqüilidade da viagem foi abalada pela entrada em cena de três ambulantes. Um de cada vez, é claro. O primeiro vendia paçocas e, pobre infeliz, fracassou miseravelmente na tentativa de convencer os passageiros a retirar o escorpião do bolso. Na seqüência veio o vendedor de canetas. Um real cada. Pessoalmente, achei as canetas pavorosas, muito berrantes, mas houve uma senhora que discordou do meu ponto de vista. Certamente não resistiu à lábia do vendedor. Este, diante do fato consumado, retirou uma caneta da caixa e passou a testá-la rabiscando um pedaço de papel. Admito, a longa duração do teste chegou a me angustiar; a caneta, sofisticadíssima, tinha três ou quatro cores (fico devendo a informação precisa). Confirmada a qualidade do produto, só então o cioso vendedor permitiu-se recolher a amarrotada nota de 1 real. É meu triste dever informar que coube ao derradeiro ambulante, o homem das bananadas, partilhar do mesmo destino do vendedor de paçocas. O fracasso comercial de ambos é uma questão que ainda me intriga. Teria o forte calor daquela tarde desestimulado a demanda por esse tipo de iguaria? Acho que nunca saberemos a resposta. De qualquer forma, toda essa experiência serviu para me dar uma brilhante idéia: estou pensando em propôr a criação de um novo índice para medir a atividade econômica do nosso país. Ele seria obtido através de uma equação que envolveria a distância percorrida pelo ônibus, o número de ambulantes presentes e o total de produtos vendidos (com pesos diferenciados para os comestíveis, cujo desempenho é influenciado por fatores sazonais). Morda-se de inveja, FGV.

domingo, março 30

Além do risco constante de engrossar a lista de vítimas de assalto, uma das coisas chatas de se andar de ônibus é ter que aturar os ambulantes que embarcam a todo instante. É só o coletivo (bonito isso) parar no ponto e logo surge um. Entra pela porta da frente, dá uma mariola pro motorista e tenta empurrar o restante para os ilustres passageiros (belos tipos faceiros?). Anteontem, tive o desprazer de ser apresentado a um novo representante da categoria. Mas esse não vendia balas ou chicletes, estava sim divulgando um programa de reabilitação para dependentes de drogas ou álcool. Até aí tudo bem, o diabo é que o sujeito resolveu descrever o tratamento com profusão de detalhes. Fiquei sabendo que para não sofrer nenhum tipo de tentação o paciente é levado para uma casa no interior do Paraná, onde assiste a cultos evangélicos, participa de atividades edificantes, etc. Tudo isso dito numa voz monocórdica que buscava sobrepor-se ao barulho produzido pelo motor do ônibus. Ao perceber que o assunto estava prestes a descambar para a ladainha religiosa, resolvi saltar fora do ponto mesmo. Minha alma já perdeu a esperança de ser salva desde que consegui ser reprovado no catecismo.

A superstição demorou um pouquinho mas funcionou em grande estilo. Encontrei o Black Eyed Man dos Cowboy Junkies por apenas 16 pratas (e é importado). O que leva uma pessoa normal a desovar essa maravilha na loja de CDs usados é algo que escapa à minha compreensão, mas acho mais é bom. Ainda no tópico "compras memoráveis", descolei na internet o primeiro álbum do Suede. É nacional, mas custou só 11 reais. Na loja cheguei a ver o Psychocandy do Jesus & Mary Chain por 18. E pensar que eu paguei uma baba por ele há uns dois ou três anos. Odeio quando isso acontece.

quinta-feira, julho 18

Na última terça eu estava num dia atípico, totalmente consciente dos sons e imagens que pairavam à procura de quem lhes enxergasse algum significado. Foi impossível evitar. Peguei o ônibus e no banco em frente ao meu estava sentado um sujeito tendo ao colo um menino de uns cinco anos que presumi ser seu filho. Sujos de areia e exalando aquele característico cheiro de água do mar, só podiam estar vindo da praia. Chamou a atenção a maneira como o indivíduo beijava, acariciava, cheirava e murmurava palavras indecifráveis para o guri, que se limitava a exprimir um certo conformismo com a situação. Conforme o coletivo seguia seu caminho, aquela interminável e efusiva demonstração de afetividade começou a me incomodar. Pensei lá com meus botões: Só falta agora ele passar a, literalmente, lamber a cria. Felizmente vagou um lugar mais adiante e pude trocar de panorama. Ameaçava ficar imerso em pensamentos, quando fui despertado por um estridente gorgolejo, a título de risada, vindo do banco detrás. Uma voz feminina, com forte sotaque nordestino, debochava do cabelo “igual do Elvis” que fulano tinha. Será que sou eu?, pensei assustado. Embora não ostente um penteado como o do Rei, sou meio paranóico e sempre desconfio que estão falando de mim pelas costas. Enquanto me debatia em dúvidas, a conversa evoluiu para o medonho topete adotado pelo Ronaldinho. A analista capilar criticava uma mulher que apareceu na TV imitando o jogador. Sua interlocutora rebateu o comentário e garantiu ser capaz de tal ousadia, inclusive já incorporara o visual de Ivete Sangalo em priscas eras. Prática depois abandonada, fruto da decepção por Ivete se esquecer dos baianos ao ficar famosa. Confesso que diante de tão pungente desabafo quase fui às lágrimas. Como vocês devem ter notado a conversa alcançava seu clímax, mas infelizmente vou ficar devendo o desfecho. Meu destino final chegara e desci contrariado para a calçada.
Para encerrar o dia, avistei na rua uma senhora passando um pito caprichado no garotinho que caminhava ao seu lado. No instante em que nossos caminhos se cruzaram, ela dirigiu um olhar severo para o moleque e disparou: "Mas você tá muito antipático hoje!". Não pude deixar de achar graça. Que eu me lembre nos meus tempos de criança jamais fui adjetivado dessa maneira (embora até merecesse). Pelo menos ninguém pode acusá-la de ser pouco original.